Eu cresci rodeada de livros. Não que os houvesse em casa dos meus pais, gente simples e pouco dada a devaneios literários, mas era só atravessar a rua e entrava num mundo mágico. A senhora bibliotecária conhecia-me pelo nome, e era ali que eu eu me transformava em princesa de encantar, vivia em castelos, perdia o sapato ao fugir do baile, fugia do lobo mau e... ó maravilha, era acordada por um beijo do meu príncipe! Foi na minha biblioteca que tirei o meu doutoramento e pós-graduação em Contos de Fadas. Esgotei todos os livros de Perrault, dos Irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen, da Condessa de Segur. Li tudo o que havia. E depois vieram os livros da Enid Blyton. Ah, como eu invejava aquelas crianças a quem aconteciam coisas tão maravilhosamente extraordinárias! E aquelas cestas de comida que levavam nas bicicletas para os piqueniques que faziam? E aqueles pais que, sem pestanejar, as deixavam nadar, acampar, andar de barco sozinhas?! Foram os livros que me salvaram do tédio de uma vida de periferia social e geográfica à qual parecia condenada.Hoje, como professora, os desafios são outros. Aos dez anos eu não tinha playstation, nem jogos vídeos, não havia facebook, nem twitter, nem snapchat. Quando eu tinha dez anos, os ratos eram só irritantes pequenos roedores e as minhas únicas janelas eram aquelas que se abriam para deixar entrar o sol. Quando eu tinha dez anos, o mundo estava ainda mergulhado nas trevas, escrevíamos na pedra - lousa - e, com a língua de fora para maior concentração, laboriosamente, passávamos a limpo as nossas composições com uma caneta de pena. Quando eu tinha dez anos.Hoje, as nossas crianças e jovens têm à disposição um mundo de dispositivos e de gadgets eletrónicos, são bombardeados com a informação mais diversa e têm acesso a um conhecimento outrora fechado a sete chaves em enciclopédias mofentas. Atualmente, os meus alunos têm tudo... e muitas vezes não têm nada. Esquecemo-nos dos gestos simples. Até quase que se desaprendeu a procurar uma palavra num dicionário...Tudo mudou. A introdução do digital alterou as nossas vidas. Nada será, a partir de agora, como dantes. Estou em crer que, como professora, as práticas de literacia da informação devem partir de uma perspetiva construtivista e dinâmica em que o aluno seja chamado a participar ativamente na elaboração do conhecimento. Essa construção do conhecimento a partir da pesquisa da informação pressupõe vários intervenientes que interagem e colaboram: professor, aluno e professor bibliotecário. Conhecer é aprender a crescer.


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